terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Paulo Victor: A ultima grande muralha do Fluminense 1981 À 1988




Uma das repercussões mais frequentes e constrangedoras da aterosclerose sobre a mente humana é a dificuldade em recorrer à memória recente. O sujeito é capaz de lembrar a roupa com a qual foi batizado ou do paladar da primeira mamadeira, mas não há como estar seguro se tomou o café da manhã, nem consegue saber onde estão os óculos que, aliás, lhe vão sobre a cabeça. Esse lamentável e alarmante quadro clínico se refere à repercussão que a coluna Papo de Bar teve sobre o meu grupo, ao fazer – com o mesmo título acima – uma justa homenagem ao goleiro do nosso último tricampeonato, Paulo Victor. Meus amigos são capazes de informar a metragem correta da fita roxa que Marcos de Mendonça usava sobre o calção, mas travaram diante de fatos ocorridos na recentíssima década de 80.Entre os vários comentários suscitados pelo excelente texto do Marcus Vinícius Caldeira, nosso companheiro Zeca Pereira manifestou interesse quanto a dois aspectos: 1) Tendo em vista que o Paulo Victor, antes de vir para o Fluminense, jogava no inexpressivo Vitória (ES), como chamou a atenção do Fluminense?; 2) Como foi o início do goleiro no Fluminense? Nossa perplexidade foi resolvida pelo Adionson, o componente mais novo da turma, que se prontificou a nos minimizar o vexame.No final de 1980, após conquistarmos o título estadual, houve um jogo amistoso entre as seleções de juniores do Rio de Janeiro e do Espírito Santo, na preliminar do clássico local Desportiva Ferroviária e Rio Branco. Na ponta-esquerda da nossa seleção estava o Paulinho (Carioca) e, na delegação, seu pai e funcionário do Fluminense, Roberto Alvarenga. Sua presença na partida tinha um caráter mais relevante do que simplesmente acompanhar o filho: a missão de avaliar um promissor meia-esquerda do Desportiva Ferroviária: Geovani. Como se sabe, o objetivo inicial não foi bem sucedido, pois o jogador acabou se transferindo para o Vasco da Gama, mas o experiente Roberto Alvarenga voltou encantado com a atuação do goleiro da preliminar.
Dessa forma, em 1981, Paulo Victor cruzava os portões de Álvaro Chaves. Seu carisma pessoal e o imenso potencial técnico, amadurecido sob as ordens do Prof. João Carlos Travassos, viriam a transformá-lo em digno herdeiro da camisa número 1 e ídolo da torcida tricolor. No entanto, seu início no clube foi bastante difícil, pois passou quase um ano na reserva de Paulo Goulart. Não bastasse a longa espera, sua estreia, no Campeonato Brasileiro de 1982 - contra a Portuguesa de Desportos – envolveu-o em um episódio que poderia marcar negativamente a carreira.As intensas chuvas daquele dia deixaram o gramado do Estádio do Canindé cheio de possas, e uma delas deteve uma bola que sairia pela linha de fundos. Certo desse destino, Paulo Victor apenas acompanhava sua trajetória, de costas para o campo. Um atacante adversário antecipou-se e marcou um gol difícil de justificar. No entanto, qualquer temor da torcida se desfez a partir da estreia no Maracanã, quando tivemos a clara demonstração dele haver caído nas graças de nosso santo protetor. No jogo contra o Campinense tivemos duas bolas na trave e um pênalti chutado para fora. Não havia dúvida: São Castilho já o abançoara.A sucessão de atuações sempre seguras, o tricampeonato estadual e o título nacional o levaram, quase com naturalidade, à convocação para a Seleção Brasileira, com vistas à Copa do Mundo de 1986. No entanto, um desentendimento com o treinador da Seleção Pré-Olímpica, Carlos Alberto Silva – o mesmo que agrediu Bebeto no vestiário -, parece ter inviabilizado sua permanência entre os convocados.Entre as tantas alegrias que Paulo Victor nos proporcionou, resolvemos recordar apenas uma, escolhida por consenso: 1988, Fla- Flu do 1º. turno, 1 x 0 (gol do nosso lateral-direito, Cacau), fim de jogo, pênalti contra nós. A torcida rubro-negra atrás da baliza acende uma cascata de fogos de artifício e faz um alarde ensurdecedor. Nosso goleiro demonstra uma concentração imperturbável, como se o estádio estivesse vazio, como se naquele momento só existissem ele, a bola e o cobrador. Andrade chuta forte, rasteiro, no canto esquerdo, Paulo Victor espalma para escanteio e, antes que se faça a cobrança, acena para a torcida adversária, como se agradecesse a comemoração antecipada da grande defesa.
Felizmente, tivemos a oportunidade de lhe reconhecer os bons serviços e lhe oferecer uma consagração que raros ídolos receberam. Em 1994, no final de carreira, Paulo Victor jogava pelo Volta Redonda e precisou enfrentar o Fluminense. Em declaração ao jornal Lance!, ele mesmo revela o ocorrido: Implorei para não jogar, não aguentaria. Mas fui obrigado e lá fui eu. Laranjeiras lotada. Pênalti para o Fluminense. Eu não sabia mais o que fazer. O Ézio bateu e eu defendi. Achei que seria linchado, mas ouvi o estádio inteiro gritando - É Paulo Victor! É Paulo Victor!

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